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A região de fronteira onde se localiza a Aldeia Apiwtxa dos Ashaninka do Rio Amônia sempre foi alvo de invasões e ameaças. Com o tempo, os Ashaninka se adaptaram, respondendo aos ataques com táticas de resistência cada vez mais sofisticadas, que incluíam buscar aliados tanto da sociedade indígena quanto da sociedade não indígena e a incorporação de conhecimentos de fora de sua tradição.

 

As comunidades Ashaninka se encontram tanto no Peru, onde são mais de 100.000, quanto em território Brasileiro, onde somam 2.500 habitantes no estado do Acre. O maior desses grupos, cerca de 1.000 Ashaninka, se localiza na Aldeia Apiwtxa do Rio Amônia, no Município de Marechal Thaumaturgo, região do Alto Juruá. A aldeia Apiwtxa do Rio Amônia é a mais conhecida da etnia, pois além do maior tamanho, suas lideranças desenvolvem há anos iniciativas importantes na defesa de seu território, preservação de sua cultura e da floresta amazônica.

 

Depois de um intenso trabalho para recuperar suas florestas, implementar um manejo sustentável de seus recursos naturais, para tirar da região traficantes e madeireiros e demarcar suas terras, os Ashaninka iniciaram projetos de capacitação das comunidades do entorno. Eles replicaram sua experiência em outras áreas, permitindo que a floresta pudesse ser uma alternativa de subsistência para outras pessoas. 

 

Essas conquistas, bem como o apoio às comunidades vizinhas, renderam vários prêmios, incluindo o Prêmio Equator das Nações Unidas em 2017. Hoje, os Ashaninka são os verdadeiros porta-vozes da agrofloresta e da preservação Amazônica, reconhecidos mundialmente por seus trabalhos.

 

Este povo indígena é notável por sua habilidade em tecer parcerias estratégicas para o fortalecimento e desenvolvimento de suas lutas e projetos. "Hoje é uma necessidade buscar o que os não índios desenvolveram lá fora, que é pra garantir e proteger o que a gente tem." reforça Moisés Piyãko, líder espiritual da Apiwtxa.

 

Dentro de suas estratégias, a educação ocupa um lugar chave na comunidade. Os Ashaninka criaram sua própria escola, desenvolvida sob uma filosofia de educação diferenciada e integrada. A escola Ashaninka conta com material didático próprio e trabalha tanto o conhecimento tradicional da etnia, a alfabetização bilíngue (aruak e português). Alguns jovens foram para a universidade e estudaram o mundo exterior para retornar com seus conhecimentos para a Apiwtxa.

 

Seguindo essa estratégia de agregar ferramentas externas, os Ashaninka decidiram se empoderar através de mais um saber não tradicional à sua cultura: a fotografia. Nela, as lideranças da comunidade enxergaram uma potente ferramenta de comunicação, de defesa de seus direitos e de afirmação de sua cultura e notaram que os fotógrafos que vem de fora não enxergam da mesma forma que eles - Os Ashaninka querem contar sua própria história. "Na fotografia, muitas vezes vemos trabalhos que as pessoas fizeram aqui (...) o olhar deles é diferente, pra nós aquilo que é importante muitas vezes não é fotografado, porque o interesse da pessoa lá de fora é diferente", conta Moisés Piyãko.

A partir dessa demanda da comunidade foi desenvolvido o projeto "Oficina de Fotografia Ashaninka”, idealizado pelo fotógrafo brasileiro Pedro Kuperman em parceria com Instituto-E e Apiwtxa - Associação Ashaninka do Rio Amônia, com o intuito de promover a capacitação dos Ashaninka. A metodologia do projeto foi desenvolvida para que o conhecimento adquirido pelos alunos sobre fotografia fosse incorporado culturalmente. O ensino foi feito de modo a permitir uma educação do olhar, além da compreensão dos princípios básicos da formação da imagem através da luz, por meio de experiências construídas e vividas pelos próprios Ashaninka.

 

O projeto teve início em 2016 e contou com 3 oficinas, sendo a última realizada em 2018 através de uma campanha de financiamento coletivo. As dinâmicas incluíram construção de câmeras obscuras artesanais utilizando elementos da cultura Ashaninka, iniciação fotográfica com câmeras pinhole, revelação em laboratório, análise crítica e descrição das imagens produzidas, e foram elaboradas e aplicadas em campo em 2017 com a colaboração do fotógrafo e educador Miguel Chikaoka.

 

Na oficina de fotografia digital, em 2018, os alunos trabalharam com os processos da mídia e aprenderam fluxos de trabalho em cima de pautas definidas pela comunidade. Foram doados equipamentos, como câmeras fotográficas digitais e laptop. A oficina contou com o auxílio do fotojornalista João Roberto Ripper.

 

Os Ashaninka do Rio Amônia nunca tiveram uma produção fotográfica feita pela própria comunidade. Eles consideram que o olhar de um Ashaninka fotografando sua própria realidade é algo extremamente poderoso, que reforça sua identidade e muda o caráter etnocêntrico da história conhecida sobre os indígenas. Com esta capacitação, eles pretendem criar um acervo de imagens que poderá ser utilizado na formação cultural de jovens, na sua comunicação com o mundo não indígena e com outras etnias.

 

A documentação fotográfica realizada pelos fotógrafos da Apiwtxa terá um papel importante tanto no fortalecimento e preservação de sua cultura tradicional quanto pelo registro e divulgação de suas atividades culturais - tecelagem, técnicas de pintura, festas, rituais e relatos. Em uma época onde os jovens têm um contato mais intenso com a tecnologia e com a vida na cidade, o registro das tradições é de grande importância, e será cada vez mais importante para as próximas gerações Ashaninkas. 

 

Benki Pyiãko, líder Ashaninka, ressalta a importância dos Ashaninka comunicarem o que lhes interessa, para o mundo fora da aldeia: “A fotografia vai trazer uma riqueza muito grande para um conhecimento que a gente busca mostrar pro mundo - com nossos próprios olhares”.

 

 A linguagem fotográfica representa para os Ashaninka, além de uma forma de expressão artística, de documentação e de denúncia, um meio de tecer a própria narrativa de sua cosmologia, de sua origem e costumes. Assim, a fotografia torna-se um recurso de sobrevivência física e cultural, ao fortalecer sua identidade de grupo, ampliando suas possibilidades de comunicação com o mundo globalizado e interconectado - a partir de seus próprios olhares.

 

Hoje, um grupo de jovens formados pelo projeto de oficinas segue realizando a documentação fotográfica da vida na Apiwtxa e dos projetos desenvolvidos pela comunidade.